quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Catástrofe política

As chuvas dão o ar da graça no mês de outubro. Em outubro, cidades de Santa Catarina foram arrasadas. Porém, é a partir de janeiro que as chuvas embalam durante semanas fazendo vítimas e destruindo cidades. Nesta semana, 66 municípios mineiros foram afetados e estão em estado de emergência (8 mortes, segundo a folha de SP, até a noite de quarta-feira, 4 de janeiro). No Rio de Janeiro, várias cidades do noroeste Fluminense estão em estado de alerta, um dique rompeu e a água invadiu o bairro de Campos.

Nos períodos de tragédia, os “estadistas” costumam fugir do batente e dos holofotes. Dilma adiantou suas férias, um grande ato para conter enchentes. Até agora, não ouvi satisfações do governador de Minas, Antônio Anastasia, sobre as políticas de sua administração para minimizar os estragos provocados pelas chuvas. Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro, ficou famoso por viajar para Europa em períodos de enchentes. Situação difícil para os governantes. Desastres naturais e avassaladores são incontroláveis, no entanto, boa infraestrutura e bons sistemas de alertas podem conter a voracidade destrutiva das águas e dos ventos. A experiência dá certo em outros países que passam por tormentas piores.

Situação difícil para os governantes. Porque muitos destes problemas de infraestrutura são decorrentes de anos de negligência do poder público e da sociedade civil, contudo, dos governos que aí estão muitos vigem o segundo mandato ou são continuação de administrações pretéritas, logo, devem ser cobrados, e com rigor. O que fizeram para melhorar os sistemas de alerta e prevenção de tragédias naturais? Muito pouco ou nada. Do contrário, nesta matéria, o Brasil não estaria tão atrasado. Se a situação é difícil para os governantes, mais difícil o é para os moradores de áreas de risco.

O ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, decidiu acalentá-los. Disse o que jamais deveria ter saído da boca de um governante, bradou: “morrerão pessoas neste verão e nos próximos. O Brasil precisa entender que o clima mudou, que vamos ter inundações, vamos ter alagamentos, deslizamento e mortes. Nós teremos vítimas esse ano, não queremos criar qualquer tipo de ilusão. Estamos procurando buscar essa consciência”. Em português claro, o ministro disse aos moradores de áreas de risco para se conformarem com seus tristes destinos, afinal, o governo federal, durante 2010 e 2011, não conseguiu construir o que já existe em vários países do mundo:  sistema de alerta e contenção de tragédias. Nestas horas, todo brasileiro consciente e não ufanista se pergunta: cadê os resultados do PAC? Por que o governo gasta milhões para construir estádios que terão serventia apenas durante a copa e não investe para retirar moradores de áreas de risco? Qualquer cidadão consciente estranha tamanha incompetência de um governo que se diz perfeito e faz propaganda do fato de a economia brasileira produzir num ano mais que a economia do Reino Unido, uma ilha minúscula que tem um per capita cinco vezes maior que o nosso.  Ou seja, a economia brasileira vai bem - graças a fatores externos e à capacidade produtiva dos brasileiros - e a maioria da população vai muito mal.

O ministro Mercadante culpa as mudanças climáticas. Ora, meu senhor, as tragédias climáticas sempre existiram. O fato é que a sexta economia do mundo não tem política de prevenção e é composta por cidades urbanamente desestruturadas. Vale mencionar o altíssimo déficit habitacional e a vilania de ricaços que constroem  mansões em encostas e contam com a vergonhosa complacência dos governos.  Para piorar a coisa para o lado do governo Dilma, saiu na imprensa a notícia de que o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, pegou 90% das verbas destinadas à prevenção de enchentes e aplicou-as em Pernambuco, estado onde o ministro é político. Eis uma boa oportunidade para a presidente mostrar que pretende por ordem na casa: ela deveria demitir o ministro e exigir critérios técnicos na distribuição destes recursos. Concordam?

Sem consciência.

O ministro fala em consciência. A consciência política está tão ruim no Brasil que apontar os defeitos do país virou sinônimo de traição à pátria. Pois é. Quem trai a pátria são aqueles que não cumprem as funções para as quais foram designados. Mais tragédias virão. Ninguém tem dúvida. Como ninguém tem dúvida de que as consequências poderiam ser menores se tivéssemos políticas mais efetivas para  minimizar as consequências das catástrofes naturais.

0 comentários: