domingo, 7 de fevereiro de 2010

Aniversário: 2 anos de blog

No dia 6 de fevereiro este blog completou dois anos de existência. Será o terceiro ano desta empreitada independente. Lancei-me neste mar virtual com o intuito de debater aquilo que mais gosto, política. E, debatendo política, debate-se o Brasil, a comunidade. É um exercício de cidadania que, volta e meia, alcança limites inenarráveis.

Além de debater política, o blog me serve como termômetro intelectual. Nele, exercito minha escrita, testo meus conhecimentos e calibro minha paciência. Dá trabalho escrever, revisar e publicar. Muitas vezes escrevo direto na fonte: área de postagem. O risco é de enviar textos com erros e sobras, mas, tenho contido a pressa e, quando necessário, tenho caprichado na estética sintética dos textos.

Este blog tem recebido sinais de amadurecimento e melhora: aumentou a quantidade de comentários e, mais do que isso, aumentou a qualidade dos comentários. Bons estudantes têm entrado aqui e deixado pertinentes reflexões. Fato positivo, por que assim, avançamos todos: melhor para o Brasil! Não sei meus colegas de blog, mas eu miro longe, quero ter importância suficiente para pensar o país e influenciar em seus rumos. E, escrevendo, palestrando, dando aulas, conseguimos influenciar a realidade. Basta querer e ter capacidade. Humildade é importante, mas ousadia é muito mais.

Para manter este espaço é necessário ousadia e eu tenho de sobra. Muitos me questionam como consigo manter uma média de textos sempre alta, e digo que minha paixão por escrever é a locomotiva. Quanto mais escrevo, mais curioso fico e mais estudo. Por exemplo, para falar da política de outro país tenho que mergulhar na história do mesmo, buscar informações e, vez outra, mesmo não escrevendo o texto por insegurança, nessa modesta empreitada de pesquisa aprendo muito. O blog é útil, é bom, gosto dele, é meu melhor passatempo.

Nesses anos falei sobre muita coisa polêmica. O blog se confunde com minha personalidade. Não consigo ser dissimulado, falo o que penso e os contrários às vezes se irritam. Chegam as pencas comentários ofensivos, eu, logicamente, recuso. Alguns beiram a esquizofrenia de tanto ódio. Outros beiram a tolice, dado o alto grau de imbecilidade. Detesto comentário xarope de gente que quer nos moldar de acordo com sua imagem e semelhança. Este blog é independente, não escrevo para agradar partido, sindicato, professor, academia, pois nenhum destes pagam minhas contas. Escrevo livremente, não quero moldar ninguém e nem quero ser moldado. Crítica e pontos discordantes são bem-vindos quando não trazem na bagagem arrogância e virulência.

Aos bons leitores, que são a maioria, eu agradeço, pois sem vocês não há debate. Vocês são ótimos e auxiliam muito, até mesmo mandando e-mails propondo temas para eu comentar etc. Agradeço vocês. Inclusive àqueles que lêem e não comentam, mas falam comigo sobre os textos nos corredores da universidade, no twitter, por e-mail, MSN etc. É gratificante ser parado no corredor da universidade, como várias vezes eu fui, e ouvir as pessoas dizerem:“olha, muitas vezes discordo de você, mas respeito sua coragem de se expor e sua boa escrita etc.”

É gratificante saber que pessoas que nem conheço usam meus textos em trabalhos estudantis ou em suas atividades docentes. Por exemplo, a leitora Bia Camargo, professora do ensino médio, vis-à-vis me pede autorização para imprimir meus textos e levá-los ao conhecimento de seus alunos e trabalhar os temas com eles. Agradeço muito e espero que aproveitem. Não tomem o que falo como verdade, mas como caminho para se construir idéias e consciência sobre determinados fatos. Não existe verdade absoluta, ou solução fácil. Sociologia, filosofia, política é diálogo, não cimento e reboque. Quem trata essas áreas como celeiro de verdades intransponíveis não passa de imbecil.

Outro motivo para se orgulhar do blog foi o professor Marco Aurélio Nogueira, que é um dos maiores intelectuais do país, indicar em seu blog um texto que escrevi sobre a tragédia de Angra dos Reis. O link da indicação se encontra na ala direita do blog, bem no topo. O fato me deixou bem contente, porque se trata de um elogio – que prefiro chamar de gentileza - de alguém que dispensa apresentações: um intelectual consagrado e que tenho como referência. Outro fato que me surpreendeu, foi o senador tucano, Arthur Virgilio, no twitter, além de elogiar, comentar três textos que escrevi. Ele poderia ter odiado os textos, mas o que vale é a presença ilustre de um político - gostem dele ou não - atuante, de idéias, com uma oratória e inteligência invejável. Como não posso ficar satisfeito com um elogio vindo dele?

Em suma, o blog vai bem obrigado. São dois anos, já! Continuarei trabalhando. Espero continuar contando com os comentários dos leitores e com a disposição deles em dar destaque a meus textos. Seguirei em frente, na rota dos fatos. Há quem siga a vida com os cotovelos ou com várias faces. Eu só tenho uma cara, na vida virtual e pessoal, não sou fingido, não faço demagogia e não falo para agradar grupelhos ou indivíduos. Trabalho em cima de fatos e reflexões. Raramente me posiciono diante das questões para não ferir as análises. E, quando opino, faço com o coração, submetendo meus gostos à cabeça, ou seja, à razão. Não tenho vergonha nenhuma de mudar minhas posições, desde que seja a partir de diálogo franco, muito estudo e trabalho, não mediante imposições rasteiras.

No final, meu lado racional sempre prevalece e, racionalmente falando, este blog já alcançou 140 postagens. Nelas, trato de questões sociais, de personalidades e, sobretudo, da política nacional, fazendo excursões analíticas em alguns fatos internacionais. É assim que trabalho. À luta, porque vem mais pela frente.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

FHC contra Lula, ou melhor, contra a mentira.


http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2801485.xml&template=3898.dwt&edition=14061&section=1012

O ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, escreveu um artigo rebatendo as bravatas do petismo e de Lula. Com o seu jargão: “nunca antes na história deste país”, Lula fala como se tivesse inventado o Brasil. O PT e Lula falam como se tivessem recebido a herança maldita, no entanto, fazem um governo de continuidade.

Duas informações rápidas para não tomar muito espaço. Na área econômica, o Brasil só ficou de pé na crise econômica porque nosso sistema bancário é bem regulado, através do PROER, criado no governo FHC, que limita os créditos dos bancos. O PT foi contra na época. A lei de responsabilidade fiscal foi essencial para o Estado brasileiro recuperar a capacidade de investimento - o PT na oposição votou contra, mas no poder a mantêm. As privatizações vieram dos governos Sarney, Itamar Franco e eram comuns no mundo inteiro, FHC privatizou a Vale do Rio Doce, atual Vale, a empresa que dava prejuízos ao Estado, ou seja, ao povo, hoje, dá lucro. E o PT agradece. Todas as estatais privatizadas, CSN, Vale do Rio Doce, passaram a funcionar, tornaram-se gigantes mundiais, geram mais empregos, pagam mais impostos e a soberania nacional não foi infirmada. Por isso, o PT mantêm as privatizações e já privatizou vários bancos federais.

Na área social, o governo FHC, através da saudosa ex-primeira dama, Ruth Cardoso, criou o Bolsa Escola, Alimentação e Vale Gás - programas que já vinham de governos anteriores oriundos de nossa constituição universalista de 1988 - que o PT foi contra. O governo Lula uniu as três bolsas em um único programa, o Bolsa Família. Este programa começou em Campinas, com o saudoso ex-prefeito tucano, Magalhães Teixeira. O PT, na oposição, criticava os programas de transferência de renda.

O Estado brasileiro nocauteado pela crise da dívida dos anos 80, aos poucos foi se recuperando. Fernando Henrique Cardoso, com medidas impopulares, mas necessárias, torpedeadas pelo PT-oposição, mas mantidas pelo PT-governo, conseguiu recuperar a capacidade de investimentos do Estado brasileiro e expandir gastos sociais - que o governo Lula manteve e até aumentou. Se olharmos historicamente, desde Sarney existem contribuições, não se trata de um fla-flu para decidir quem é melhor. Todavia, Lula fala como se tivesse inventado o Brasil - vítima, segundo ele, de 500 anos de ataque dos brancos da elite. Tudo bem que o Brasil historicamente foi corroído por parasitas personalistas, mas Lula sabe que FHC não pode ser colocado nesse grupo. Lula e o PT criou essa armadilha política e os tucanos caíram. FHC sempre resistiu aos ataques covardes do lulismo e nesse artigo prova que não teme a comparação, fala da necessidade do Brasil andar para frente e deixar o retrovisor oportunista de lado. Leiam:

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Sem medo do passado, por Fernando Henrique Cardoso:

O presidente Lula passa por momentos de euforia que o levam a inventar inimigos e enunciar inverdades. Para ganhar sua guerra imaginária, distorce o ocorrido no governo do antecessor, autoglorifica-se na comparação e sugere que se a oposição ganhar será o caos. Por trás dessas bravatas está o personalismo e o fantasma da intolerância: só eu e os meus somos capazes de tanta glória. Houve quem dissesse “o Estado sou eu”. Lula dirá, o Brasil sou eu! Ecos de um autoritarismo mais chegado à direita.

Lamento que Lula se deixe contaminar por impulsos tão toscos e perigosos. Ele possui méritos de sobra para defender a candidatura que queira. Deu passos adiante no que fora plantado por seus antecessores. Para que, então, baixar o nível da política à dissimulação e à mentira?

A estratégia do petismo-lulista é simples: desconstruir o inimigo principal, o PSDB e FHC (muita honra para um pobre marquês...). Por que seríamos o inimigo principal? Porque podemos ganhar as eleições. Como desconstruir o inimigo? Negando o que de bom foi feito e apossando-se de tudo que dele herdaram como se deles sempre tivesse sido. Onde está a política mais consciente e benéfica para todos? No ralo.

Na campanha haverá um mote – o governo do PSDB foi “neoliberal” – e dois alvos principais: a privatização das estatais e a suposta inação na área social. Os dados dizem outra coisa. Mas os dados, ora os dados... O que conta é repetir a versão conveniente. Há três semanas Lula disse que recebeu um governo estagnado, sem plano de desenvolvimento. Esqueceu-se da estabilidade da moeda, da lei de responsabilidade fiscal, da recuperação do BNDES, da modernização da Petrobras, que triplicou a produção depois do fim do monopólio e, premida pela competição e beneficiada pela flexibilidade, chegou à descoberta do pré-sal. Esqueceu-se do fortalecimento do Banco do Brasil, capitalizado com mais de R$ 6 bilhões e, junto com a Caixa Econômica, libertados da politicagem e recuperados para a execução de políticas de Estado. Esqueceu-se dos investimentos do programa Avança Brasil, que, com menos alarde e mais eficiência que o PAC, permitiu concluir um número maior de obras essenciais ao país. Esqueceu-se dos ganhos que a privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro, com a democratização do acesso à internet e aos celulares, do fato de que a Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal, de que a Embraer, hoje orgulho nacional, só pôde dar o salto que deu depois de privatizada, de que essas empresas continuam em mãos brasileiras, gerando empregos e desenvolvimento no país.

Esqueceu-se de que o país pagou um custo alto por anos de “bravata” do PT e dele próprio. Esqueceu-se de sua responsabilidade e de seu partido pelo temor que tomou conta dos mercados em 2002, quando fomos obrigados a pedir socorro ao FMI – com aval de Lula, diga-se – para que houvesse um colchão de reservas no início do governo seguinte. Esqueceu-se de que foi esse temor que atiçou a inflação e levou seu governo a elevar o superávit primário e os juros às nuvens em 2003, para comprar a confiança dos mercados, mesmo que à custa de tudo que haviam pregado, ele e seu partido, nos anos anteriores.

Os exemplos são inúmeros para desmontar o espantalho petista sobre o suposto “neoliberalismo” peessedebista. Alguns vêm do próprio campo petista. Vejam o que disse o atual presidente do partido, José Eduardo Dutra, ex-presidente da Petrobras, citado por Adriano Pires, no Brasil Econômico de 13/1/2010. “Se eu voltar ao parlamento e tiver uma emenda propondo a situação anterior (monopólio), voto contra. Quando foi quebrado o monopólio, a Petrobras produzia 600 mil barris por dia e tinha 6 milhões de barris de reservas. Dez anos depois, produz 1,8 milhão por dia, tem reservas de 13 bilhões. Venceu a realidade, que muitas vezes é bem diferente da idealização que a gente faz dela”.

O outro alvo da distorção petista refere-se à insensibilidade social de quem só se preocuparia com a economia. Os fatos são diferentes: com o Real, a população pobre diminuiu de 35% para 28% do total. A pobreza continuou caindo, com alguma oscilação, até atingir 18% em 2007, fruto do efeito acumulado de políticas sociais e econômicas, entre elas o aumento do salário mínimo. De 1995 a 2002, houve um aumento real de 47,4%; de 2003 a 2009, de 49,5%. O rendimento médio mensal dos trabalhadores, descontada a inflação, não cresceu espetacularmente no período, salvo entre 1993 e 1997, quando saltou de R$ 800 para aproximadamente R$ 1.200. Hoje se encontra abaixo do nível alcançado nos anos iniciais do Plano Real.

Por fim, os programas de transferência direta de renda (hoje Bolsa-Família), vendidos como uma exclusividade deste governo. Na verdade, eles começaram em um município (Campinas) e no Distrito Federal, estenderam-se para Estados (Goiás) e ganharam abrangência nacional em meu governo. O Bolsa-Escola atingiu cerca de 5 milhões de famílias, às quais o governo atual juntou outras 6 milhões, já com o nome de Bolsa-Família, englobando em uma só bolsa os programas anteriores.

É mentira, portanto, dizer que o PSDB “não olhou para o social”. Não apenas olhou como fez e fez muito nessa área: o SUS saiu do papel à realidade; o programa da aids tornou-se referência mundial; viabilizamos os medicamentos genéricos, sem temor às multinacionais; as equipes de Saúde da Família, pouco mais de 300 em 1994, tornaram-se mais de 16 mil em 2002; o programa “Toda Criança na Escola” trouxe para o Ensino Fundamental quase 100% das crianças de sete a 14 anos. Foi também no governo do PSDB que se pôs em prática a política que assiste hoje a mais de 3 milhões de idosos e deficientes (em 1996, eram apenas 300 mil).

Eleições não se ganham com o retrovisor. O eleitor vota em quem confia e lhe abre um horizonte de esperanças. Mas se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Mercadante e o mundo dos boçais.

Certa feita ouvi um grupo de lorpas dizendo na faculdade: “é um absurdo o Serra aparecer na EPTV dando os parabéns à emissora" (a EPTV estava fazendo aniversário). Segundo estes pretensos críticos – que não passam de boçais - isso seria uma pré-campanha patrocinada pela EPTV.

Na verdade, é comum em situações onde grandes veículos ou personalidades públicas comemoram datas especiais ou, até mesmo, morrem, receberem homenagens de homens públicos que ocupam altos cargos. Mas, para acéfalos praticantes, é difícil entender tal trivialidade. Para eles, qualquer entrevista de um político que não gostam se trata de um golpe da mídia.

Todavia, há casos que realmente intrigam. Há poucos dias, a EPTV apresentou uma entrevista com o presidente Lula no jornal regional (a íntegra foi apresentada no EPTV Comunidade, aos sábados de manhã) de mais de meia hora. Uma entrevista às portas de uma campanha eleitoral, sendo que Lula aparece na região de Campinas várias vezes em um ano. Ou seja, se fosse com Serra já estariam denunciando o "golpe". É isso que intriga, ponto! Esse caso é compreensível, Lula, geralmente, não dá entrevistas, no entanto, agora, elas o interessam. O jornal pensou no público e, principalmente, pensou em si, foi lá e fez uma grande entrevista e todo mundo saiu feliz. Não houve armação, mas conveniência entre as partes, o que é absolutamente normal. Como não houve armação no caso de Serra. A EPTV, Serra e Lula são importantes demais para precisarem disso.

A entrevista de Lula ocorreu há duas semanas - mais ou menos - e, nesta sexta-feira, mais um petista foi entrevistado pela EPTV, Aloísio Mercadante. Ele é pré-candidato ao Senado e ao governo do Estado, portanto, a nada. Seu desempenho nas pesquisas para governador é vexatório. E para Senador, como serão duas vagas, ele poderá garantir seu lugar. O que me chamou a atenção na entrevista foi a capacidade de Mercadante de se apequenar politicamente. A repórter perguntou sobre seu futuro político e ele carimbou essa sandice: posso ser candidato a governador, mas é provável que eu seja candidato a Senador, mas o certo mesmo é que estarei como militante ao lado do presidente Lula em 2014 fazendo a campanha por sua volta.

Viram? Mercadante, mesmo sem querer querendo, passou a borracha na candidatura de Dilma Roussef. Eu, ao contrário de boçais, não fico perdendo tempo acusando a emissora de petismo - o que seria um dolo, pois não vi a programação da emissora e, provavelmente, já entrevistaram algum tucano durante as últimas semanas, e se não fizeram, o farão – prefiro me ater ao fato relevante da entrevista: a insanidade política de Mercadante. Esse senhor ganha espaço e consegue se ofuscar. O PT e Lula, mais ainda, estão engajados na candidatura de Dilma. E, Mercadante, numa região de seis milhões de habitantes, terceira potência econômica do país, fala como se Dilma não existisse.

Aloísio Mercadante, no alto da sua esquisitice, falou como se Dilma fosse uma pré-derrotada - e ela não é – e falou em 2014 para bajular Lula. O terceiro mandato de Lula deve ser o sonho da vida do senador. Mercadante merece mais um pito de Lula, como aquele que levou ano passado quando ameaçou se licenciar do Senado, mas desistiu da idéia depois de conversar com Lula. Situação humilhante.

Aloísio Mercadante está se tornando especialista em sandices. Em 2006, no debate para governador do Estado de São Paulo, respondendo a Plínio de Arruda em quem ele havia votado na eleição de presidente do PT, Mercadante, com medo de falar Berzoini (acusado de liderar o esquema dos dossiês fajutos contra tucanos) falou que votou no presidente Lula. Foi tão vergonhoso que, em casa, fiquei vermelho por ele. Foi ridículo. Típico de político fraco, sem personalidade, sem autonomia, que anda com as pernas dos outros, pau mandado de Lula. Um forte fraco dentre os fortes do PT. O partido é como uma geladeira que ilumina Mercadante, mas ele não ilumina o partido. Ele se rebaixou a fantoche dentro do PT.

A relativa força que Mercadante tem na política foi o PT quem deu. Ele não tem luz própria, por isso, segue dando tropeçadas - como nesta entrevista da EPTV - e adulando Lula. Parece que Lula é o pai místico de Mercadante, uma espécie de entidade que ele segue cegamente. O que deu na cabeça dele para responder um disparate destes a repórter da EPTV? Os boçais não darão a devida vênia para deslizada do Senador, afinal, não se tratou de tucanos na parada, daí não tem como acusar de golpe e, além disso, se sentiram bem representados por Aloísio Mercadante.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Política alagoana. Política do Brasil!

Em seu blog, Mário Toledo, um dos comentadores deste blog, escreveu um texto sobre a relação da imprensa alagoana com a política. Comentei o texto e pedi que ele esboçasse o quadro pré-eleitoral de Alagoas. Ele me respondeu prontamente. Abaixo, segue a resposta de Mário Toledo que tomei a liberdade de dividir com os leitores deste blog.
Os parasitas do coronelismo, clientelismo, personalismo, patrimonialismo, servilismo e do “chantagismo” da esquerda corporativista estão presentes no fígado do Estado alagoano corroendo a política local e arrefecendo a democracia. Para entenderem a situação do governador Teotônio Vilela, de Heloisa Helena, Renan Calheiros, Fernando Collor, Ronaldo Lessa e o papel de Lula na região, leiam o texto de Mário Toledo.

Por Mário Toledo,

André, por aqui acho que teremos uma eleição bem interessante. A situação dos candidatos ainda está indefinida. Definido mesmo só que o governador Téo Vilela irá disputar a reeleição e que Lula ordenou a Lessa que não atrapalhe Renan Calheiros.

A maioria dos caciques políticos do estado se juntou num grupo que por aqui está sendo chamado de chapão. O tal chapão congrega Collor, Renan, Cícero Almeida (atual prefeito de Maceió e com altíssima popularidade) e outros caciques "tradicionais" da política alagoana, notórios por seu envolvimento em crimes que vão desde homicídios a peculato (alguns destes foram presos pela PF num escândalo de corrupção da Assembléia Legislativa).

A política alagoana é podre, meu caro, primitiva. O nível intelectual e moral dos políticos é baixíssimo. A compra de votos é coisa normal por aqui. No interior, salvo raras exceções, qualquer um pode se eleger, bastando para isso ter dinheiro. Salvo quando surge uma figura "mítica" como um Fernando Collor, a massa geralmente só vota em que lhe compra alguma coisa ou lhe dá alguns trocados.

Lessa se aliou à turma que faz política dessa forma e não quer que a coisa mude. O filho de Renan Calheiros tem possibilidade de ser o vice de Ronaldo Lessa.

Quanto ao governo tucano, esse de fato vem sendo massacrado desde o primeiro dia de mandato. O motivo são as medidas de austeridade nas contas públicas, depois de 8 anos de leniência durante o governo Lessa.

O desgaste do governo começou desde o primeiro dia do mandato, quando o governo do estado alegou que não tinha condições de pagar um aumento salarial aos professores da rede pública. O aumento havia sido firmado em decreto no apagar das luzes do governo Lessa. Após 8 anos de governo, Lessa (na verdade seu vice) assinou o decreto, mas, o próximo governante é que iria teria de pagar o aumento, já no primeiro mês do governo.

Com o anúncio do não-pagamento, professores entraram em greve. Seguiram-se outras greves, noutros setores. Protestos da CUT e sindicatos, tudo aquilo que já vimos no governo FHC com os petistas. O governo chegou a um acordo com os professores e o aumento foi dado em parcelas. Com esse aumento, o professor alagoano passou um dos mais bem pagos do país, mas o estado continuou sendo o que tem a pior educação no território nacional.

André, a situação financeira do estado de Alagoas é bem ruim, desde que o estado quebrou durante o governo Divaldo Suruagy, na década de 90. Além de ser um estado pobre, mensalmente temos de pagar parcelas de uma dívida com o governo federal. Téo Vilela é bastante impopular porque está tentando equilibrar as contas num estado quebrado que não tem a menor condição de fazer investimento.

No ano passado, CUT e o sindicato dos professores fizeram uma greve política, com o objetivo de desgastar o governo (para minha vergonha, os professores que ganhavam o 4º maior salário do país apoiaram a greve). Todos foram desmoralizados quando uma auditoria da própria CUT, por meio do Dieese, confirmou o que o governador alegava: não há dinheiro para aumento, por conta da Lei de Responsabilidade Fiscal. A greve fracassou, e o governador angariou mais antipatia do funcionalismo público.

Em relação à Heloísa, ela deve se eleger mesmo para o senado. Uma candidatura dela ao governo é inviável, penso (graças a Deus!). Renan deverá ser eleito para o senado, graças a ação de Lula. E o Collor ainda pode sair candidato ao governo, no lugar do Lessa, que sairia para deputado federal.

Estão todos unidos contra o Téo Vilela. O governador é detestado por professores, policiais civis e outros funcionários públicos. O governo se limitou a equilibrar as contas públicas. Não houve grandes investimentos (até por falta de recursos). Agora, na reta final, se conseguiu um empréstimo do Banco Mundial para investimento em infra-estrutura. Obras andam a passo de tartaruga.

No começo do comentário, meu amigo, eu falei que essa eleição seria interessante. Explico melhor. Como disse, o governador é detestado por diversos setores. Mas, particularmente, penso que muita gente que o odeia vai votar nele. Diante da possibilidade de um governo onde Collor, Renan e uma malta de deputados pistoleiros (não é força de expressão, são assassinos mesmo) vão comandar, acredito que muita gente vai acabar é votando no Téo. No entanto, eu não subestimo a capacidade de meus conterrâneos em votar com o fígado e fazer escolhas erradas. Essa eleição vai mostrar o grau de maturidade do eleitor alagoano e a força desses que são tão criticados pela população letrada, mas que, ao que parece, podem ser reconduzidos como "salvadores" de volta ao poder. Abraço.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Objetividade aos subjetivos!

"Em razão desses investimentos as matrículas nas escolas federais cresceram 41% apenas nos dois últimos anos do governo FHC, marca quase cinco vezes maior do que a alcançada em seis anos de governo Lula". Paulo Renato de Souza, ex-ministro da educação e atual secretário de educação de São Paulo

No final exponho um texto publicado na Folha, do ex-ministro da educação federal e atual secretário da educação de São Paulo, Paulo Renato de Souza, sobre o ensino técnico. Nele, o ministro, munido de números MEC – que são tomados como verdadeiros até pelo governo federal -, mostra que, no governo FHC o investimento no ensino técnico foi maior do que no governo Lula. Desmistifica várias mentiras, uma delas, impetradas na campanha de 2006, onde o petismo disse que FHC interrompeu o investimento na expansão do ensino técnico, quando na verdade, o ex-presidente criou escolas técnicas em parceria com Estados, setor produtivo e entidades não-governamentais. Tratou-se de uma descentralização para política conjunta e estratégica, não de uma abdicação. Na verdade, em 2003, foi o PT, segundo o ministro, que parou as obras do Proep (medida estrutural do governo FHC para construção de escolas técnicas) , além disso, o PT federalizou as construções adotando o modelo antigo – que tende ao elitismo - com intuito de marcar a ferro quente a marca do governo federal nas costas das escolas técnicas.

Se os gastos sociais foram maiores no governo FHC, se as leis e medidas estruturais que seguraram o Brasil de pé na crise econômica do “ano passado” foram feitas no governo FHC, se os investimentos no ensino técnico foram maiores no governo de FHC do que no governo Lula e os tucanos não conseguem dizer isso à sociedade, provam incompetência política. O PT pode ser menos hábil governando, mas é melhor fazendo política (e não estou julgando o conteúdo e os meios, mas falando da eficácia da comunicação). Ficar dizendo que a política petista é demagógica, pura e simplesmente, é chororô moralista. Os tucanos devem honrar sua história e força e se confrontarem com os petistas no âmbito federal. Por que não desmistificam para a sociedade as demagogias do PT e cantam com orgulho suas glórias que são à base das glórias do petismo? Só agora, através de artigos em jornais, acordaram. Passaram anos fugindo do embate. Parece que o segundo turno que Lula venceu em 2006 na base do plebiscito atacando às privatizações e confrontando números entre os governos acuou os tucanos.

Admito que não é fácil colidir com um partido que tem na sombra, movimentos sociais de massa e um presidente popular. Fora do poder, o PT sempre conta com os “serviços” da CUT, APEOESP, MST e companhia. Essa gente não está nem aí para democracia ou para estabilidade política. Se precisar incitar uma greve ilegítima na USP (ou noutras universidades públicas), na Petrobrás, no metrô, eles estão apostos para atingir os adversários. Os bobalhões dos movimentos – a raia miúda - em busca de interesses corporativos forjando uma luta pelo socialismo. Os petistas – raia graúda – querendo atingir os tucanos, ou qualquer outro que seja, e conquistar o poder. No governo FHC, o PT fazia coro àquela patetice do “fora FHC”, votou contra todas as medidas estruturais, entre elas, a Lei de Responsabilidade Fiscal, e hoje, no poder, nadam de braçadas nas medidas do governo anterior - mas dizem que descobriram o Brasil - inclusive, mantendo as privatizações, que transformaram, com muita demagogia, junto aos movimentos sociais, em coisa do demônio. A idéia deles não era discutir as agências reguladoras, as formas como se deram as privatizações ou propor outras saídas, a idéia era satanizar as privatizações taxando-as de neoliberal, entreguistas e tirar proveito político.

Para quem quer o tal socialismo - que não deu certo na União Soviética, no passado, como não está dando na Venezuela, no presente - e para quem quer ser o Príncipe e imperativo categórico da sociedade, pouco importa a verdade ou o futuro do país, o que vale é poder. Fora do poder: quanto pior melhor. Dentro dele: vale tudo para mantê-lo. Inclusive dizer que é certo no presente o que se dizia que era errado no passado. Esse tipo de política para as pessoas que andam com a coluna ereta é a ideal? Não. Mas se escandalizar com isso é burrice – ainda mais para quem já leu Maquiavel. E se arrefecer diante destas demagogias é pior ainda. Não se deve correr do debate e temer o joguete da comparação com medo da popularidade do presidente Lula. Se se está no inferno, abrace o capeta. Não é o que dizem?

Paulo Renato de Souza deu uma de Fernando Henrique Cardoso e bateu de frente com o governo Lula. Vejam o seu artigo. Tenham paciência com o tamanho e leiam. Alguns pontos, eu destacarei com formatações nas frases, dados e palavras.

*

Falar a verdade, não falsear informações não é uma qualidade. É obrigação. Vale para a nossa vida pessoal e mais ainda para a vida pública. Mentir não pode ser considerado uma simples esperteza, um pequeno truque, uma “tática” para ganhar uma discussão. Ou uma eleição.

Recentemente, usando um ato administrativo como palanque eleitoral, a candidata a presidente Dilma Rousseff afirmou que os tucanos não dão importância ao ensino técnico profissionalizante. Em contraste, citou as intenções do atual governo de criar novas escolas técnicas. Omitiu e falseou dados. Mentiu.

Basta analisar os números sobre a expansão do ensino técnico federal, desde o início do governo Lula, e compará-los com o desempenho de apenas um Estado da Federação, no mesmo período. Segundo as informações do Ministério da Educação, em 2003 o número de alunos matriculados nas escolas técnicas federais era levemente superior ao da rede de escolas técnicas de São Paulo: 79 mil no Brasil inteiro e 78 mil nas escolas técnicas estaduais paulistas. Seis anos depois, em 2009, o Estado de São Paulo registrava 123 mil alunos nas suas escolas técnicas, ante apenas 87 mil nas escolas federais. Assim, entre 2003 e 2009, a expansão das matrículas no governo federal foi de apenas 9%. Nesse mesmo período, o ensino técnico público paulista cresceu 58%, sob o comando de dois governadores do PSDB - Geraldo Alckmin e José Serra.

Uma vilania repetida desde a campanha eleitoral de 2006 afirma que o governo Fernando Henrique Cardoso teria proibido por lei a expansão do ensino técnico federal no País. Como ministro da Educação que cuidou desse programa, posso afirmar: mentira pura. A Lei 9.649, citada como “prova” pelos mentirosos, dizia que novas escolas técnicas deveriam ser criadas pela União sempre em parceria com os Estados, o setor produtivo ou entidades não-governamentais.

Essas parcerias tinham duas vantagens. Primeiro, garantir uma vinculação maior e mais ágil entre as escolas técnicas e o dinamismo dos mercados de trabalho locais, onde os empregos são efetivamente gerados. Segundo, era evidente que, em geral, nossas escolas técnicas federais ofereciam um bom curso de nível médio, que preparava, gratuitamente, os filhos da classe média alta para ingressar na universidade, mas não atendiam nem aos filhos das famílias mais pobres nem às necessidades de formar técnicos de nível médio para o mercado de trabalho. Por incrível que pareça, o modelo tradicional favorecia os filhos dos ricos e prejudicava os filhos dos pobres.

Criamos o Programa de Expansão da Educação Profissional (Proep) e obtivemos financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Além de criar novas escolas técnicas estaduais e comunitárias, canalizamos investimentos para modernizar as escolas técnicas federais existentes, com equipamentos e laboratórios. Em razão desses investimentos as matrículas nas escolas federais cresceram 41% apenas nos dois últimos anos do governo FHC, marca quase cinco vezes maior do que a alcançada em seis anos de governo Lula. É preciso esclarecer de uma vez por todas que expandir o ensino não exige sempre criar novas instituições. Muitas vezes, basta aumentar a capacidade das existentes. Por si sós, esses fatos e números reiteram a falta de compromisso da candidata oficial com a verdade.

Na mesma linha, em recente debate radiofônico, o presidente nacional do PT acusou o governo anterior de “privatizar” o ensino técnico. Nada mais falso. Entre 1998 e 2002, aprovamos 336 projetos de escolas técnicas, sendo 136 para o segmento estadual, 135 para o comunitário e 65 para as escolas técnicas federais. Ou seja, 60% dos projetos financiados pelo Proep se destinavam à criação ou modernização de escolas técnicas públicas, federais ou estaduais. O ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra, do PT, pode lembrar os inúmeros projetos de escolas técnicas estaduais que financiamos e inauguramos juntos durante seu mandato.

Os projetos do segmento comunitário visavam à criação, com o apoio financeiro da União, de escolas administradas por entidades sem nenhuma finalidade de lucro, tais como centrais sindicais - a CUT entre elas -, sindicatos patronais e de trabalhadores, fundações municipais e entidades eminentemente filantrópicas e culturais, como o Projeto Pracatum, na Bahia. Nada disso, portanto, pode ser associado à fantasia de “privatizar” o ensino técnico.

A partir de janeiro de 2003, primeiro mês do governo Lula, o Proep foi bruscamente interrompido. O presidente nem deve ter sabido disso na época. Obras ficaram inacabadas e muitos projetos nem sequer foram iniciados. Em 2004 o Ministério da Educação devolveu ao BID US$ 94 milhões, não utilizados!

Como seria difícil explicar, na campanha eleitoral de 2006, por que havia parado o programa de expansão do ensino técnico, o governo federal retomou os 32 projetos do Proep (de um total de 232 interrompidos). Num passe de mágica, promoveu sua “federalização”, criando “novas” escolas federais ou “novas” unidades nas existentes.
Embrulho novo em presente antigo. Isso foi tudo o que o Ministério da Educação fez pelo ensino técnico em seus quatro primeiros anos de gestão, fato que a ministra Dilma, na hipótese mais benigna, parece ignorar.

Agora, em fim de governo, busca-se recuperar o tempo perdido lançando projetos a toque de caixa, no velho modelo de escolas técnicas que ofereciam ensino médio para os ricos e muito pouco ensino técnico para os pobres. Não é o melhor que o País poderia ter, mas, ainda assim, é melhor do que nada.

Quem muito fala dos outros é porque tem pouco a falar de si. Mas quem deseja o respeito da população e pretende submeter-se ao julgamento das urnas tem o dever de pelo menos começar a falar a verdade sobre os outros e sobre si mesma.

sábado, 30 de janeiro de 2010

PT: príncipe ou sapo?

Com a eleição de José Eduardo Dutra para presidente do PT, o partido recrutou José Dirceu, José Genoino e João Paulo Cunha à direção da legenda. Os três aparecem como réus no processo do mensalão que corre no Supremo Tribunal Federal – STF.

Partidos que abrigam acusados de corrupção se colocam na mesma condição moral que os mesmos. No caso dos petistas, as acusações que pesam contra eles são gravíssimas. O correto era o partido tê-los afastados. É o mínimo que se espera de um partido que passou duas décadas dizendo-se o único impoluto. No entanto derão guarida aos réus.

Parece até uma recompensa: "como os três foram bravos companheiros durante a tormenta agora merecem o galardão". Essas coisas acontecem porque o mensalão petista se tratou de roubo ideológico. Alugaram à base aliada PP, PL, PTB (que se dizia fora do mensalão) para não dividirem o comando dos escalões do Estado. A idéia era criar uma estrutura monumental nos meandros da máquina para garantir votações e ganhar eleições e, quem sabe, dominar o parlamento. Trocando em miúdos, tornar-se hegemonia dentro do Estado. Era um plano robusto de poder que derrapou na língua de Roberto Jefferson, mas que ainda vive, pois o PT não perdeu a vocação de ser o Príncipe Moderno, de Gramsci, no século XXI – apesar da cara de sapo.

Desmoronado o plano de poder do PT. O partido correu para estancar as feridas. A bomba caiu sobre o colo de José Dirceu, tido como o arquiteto do esquema. O presidente Lula foi blindado e o partido sobreviveu, apesar das seqüelas. Os bravos guerreiros bolcheviques foram firmes durante a avalanche de denúncias ensimesmadas pelas CPIs dos Correios e Mensalão. Na imprensa e nas CPIs ficaram de bico calado. Genoino chegou a dizer que assinou um cheque de quatro milhões sem querer e não soube explicar o fato de seu irmão ter usado uma cueca como caixa eletrônico. Delúbio Soares não soube explicar como conseguiu sacar milhões. E, os deputados que receberam mesadas, entre eles, João Paulo Cunha, negaram os saques. Terminados os espetáculos de amnésia e dança folclórica no Congresso, o procurador-geral da República indiciou 40 nomes à justiça. Passado o temporal, veio a reeleição do presidente Lula e o bom desempenho popular do mesmo, agora; os bons filhos à casa tornaram - se é que saíram algum dia.

Há quem diga que o roubo petista não foi para fazer fortunas pessoais, ao contrário do DEM, de Brasília. Roubo modesto? -Não. Ajudaram familiares e amigos com tráfico de influência. Silvinho Pereira ganhou até um carro. Mas, o objetivo do PT era monopolizar os instrumentos de Estado e pavimentar a rodovia do poder se tornando o imperativo categórico da sociedade. Mesmo em tempos de liberdade individual, democracia, estabilidade econômica e política, e prosperidade via liberdade econômica, o partido insiste em se tornar o caudatário da libertação da sociedade: “este ente repleto de indivíduos alienados pela burguesia”.

Mas, por ironia do destino, no momento, o PT é refém daqueles que eles excomungaram. O PMDB – que foi chutado em 2003 e em 2005 socorreu o PT na crise do mensalão – controla os principais ministérios do governo petista, e sem o PMDB, não há governo. E, PP, PR (ex-PL) somam-se à base aliada. PT e PSDB surgiram de forças que prometiam romper com o “varguismo”, “populismo” e com as práticas patrimonialistas (para muitos, residentes no PMDB, PP, PR, partidos tidos como fisiológicos). Todavia, no poder, o PT radicaliza as ações patrimonialistas através do aparelhamento do Estado e canta as glórias de um presidente com ares populistas. O PT - na intenção de se colocar como sectário da sociedade - confunde partido com Estado e esta confusão está na esteira da roda gigante que movimentou o mensalão e trouxe de volta os que não foram.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Indiferença política

Você sabe dizer o nome de um ministro?

Pesquisa da Ipsos mostra que entre os escolarizados, 34% não sabem dizer o nome de um ministro e, entre os pobres sem-escolarização, 20% não conseguiram responder a questão. A maioria, segundo o instituto, não sabe dizer o nome de um senador ou deputado.

Esta pesquisa foi apresentada no site pensata, de Gilberto Dimenstein. Caio Henrique Coró, um dos comentadores deste blog, enviou-me a reportagem e pediu para que eu opinasse sobre o assunto – tendo em vista que Dimenstein não falou nada de novo, apenas expôs o diagnóstico e tascou o juízo de valor: “o povo brasileiro esquece em quem votou, é despolitizado até entre os escolarizados e por isso temos corrupção e incompetência”.

Tudo bem, mas e daí?

Para começar. É muito complicado para os cidadãos lembrarem nomes de ministros em um país onde os ministérios são peças de barganha política. Criam-se ministérios que mais parecem OVNIS – Objetos voadores não-identificáveis - nem a intelectualidade e a imprensa sabem dizer o nome de todos os ministérios e ministros, menos ainda, as pessoas que não vivem de estudar e cobrir política.

Temos ministérios que se complementam. Uma pasta tem praticamente a mesma função da outra, mas a sanha em abrir ministérios é mais forte que a racionalidade. Acontece que, no Brasil, o sistema de coalização obriga o partido que está no governo a realizar ampla coalização com outros partidos, obter a maioria no Congresso e condições de governabilidade. Para tanto, os partidos entram num processo nebuloso de barganha, onde vale tudo, mentir, dissimular, brigar, mas, no final, todos os interesses devem ser atendidos. O governo quer, sobretudo, apoio e a base aliada, cargos. Quanto mais pastas tiverem na mesa mais condições o governo terá de barganhar cargos e agradar gregos e troianos.

Trata-se de um problema estrutural complicado, não é uma questão moral, individual ou de partido. Qualquer um que ganha eleições para cargos executivos passa por esse ritual. O prefeito de São Paulo, pertencente a um partido que prega diminuição da máquina estatal, ao ganhar uma eleição com apoio do PMDB - além de PSDB e PPS que apoiaram no segundo turno - teve que aumentar o número de subprefeituras para comportar toda a trupe de indicações.

Só o governo Lula tem mais de 30 ministérios, entre os quais, os exóticos, ministério da pesca e da igualdade racial - pouca gente sabe que existe. Diante deste elefante branco fica difícil para o cidadão diferenciar o rabo da tromba. E, de acordo com as turbulências políticas vão ocorrendo mudanças nas bases, os ministérios vão ganhando novas formas, fato que dificulta ainda mais a identificação do cidadão com o governo. Tem pastas que chegam ter quatro ou cinco ministros em dois ou três anos. No governo Lula, tivemos mais de três ministros na saúde e na educação, talvez por isso, os resultados desse governo de “esquerda” nessas áreas sejam vexatórios.

Além da dança nos ministérios, tem outro detalhe. Os cidadãos estão afastados da política - e por razões diversas. Um dos fatores é a falta de confiança dos cidadãos nas instituições - que não conseguem responder as demandas do povo – e a corrupção. Pessoas que estão há mais de duas décadas com causas na justiça e sem resposta. Por outro lado, bandidos matam e ficam soltos. Sistema de saúde e educação esfacelado. E, quando olham na TV vêem os políticos que escondem dinheiro público na meia, soltos. Aumenta o espasmo e o asco da sociedade em relação à política e, por tabela, crescem as posições confortáveis do “deixa pra lá”.

Na modernidade líquida, termo do Zygmunt Bauman, os partidos perderam sentido, não conseguem mais concentrar as aspirações da sociedade e criar ações coletivas. Vivemos em uma sociedade fragmentada e altamente individualizada, sendo assim, a política torna-se um meio frívolo de satisfazer o interesse imediato de indivíduos e grupos gananciosos. A tarefa de manter a política como ferramenta de promoção de justiça, liberdade e democracia é de todos nós, mas os mecanismos para tanto se esvaziaram. Não seria o caso de encher esses mecanismos de sentido novamente?

Outra questão. Vivemos numa sociedade acelerada. As pessoas frenéticas, correm e escorrem pelas ruas buscando solucionar seus problemas e interesses particulares. O que é compreensível, precisam pagar suas contas, encontrar trabalho, se aprimorarem profissionalmente para barganhar melhores empregos etc. Sobra pouco tempo para pensar no coletivo ou em política. E não é um problema de brasileiros, mas de todos que estão sob o efeito da modernidade líquida.

No tempo livre, as pessoas querem lazer. A televisão é o veículo de lazer imediato da maioria dos brasileiros. Nela, há espaço para política. Todavia, as informações chegam aos olhos dos cidadãos, mas não à alma. A volatilidade dos fatos e o jorramento de informações sem preocupação com a reflexão, por parte dos veículos de informação, tapam as vistas do cidadão estupefato. E mais: a maioria dos brasileiros não têm discernimento político para depurar de maneira reflexiva as informações – independente de ter escolaridade ou não.

Talvez, nos momentos de agonias e tragédias as pessoas se movimentem para causas comuns, como nos momentos de enchentes. Mas são atos isolados e efêmeros. A democracia sofre com a corrupção, com a paralisia das instituições políticas e com a falta de participação dos cidadãos. Falta sinergia entre o poder público e a sociedade e isso deixa-os em lados opostos quando deveriam estar agregados.

Entre o poder público e a sociedade há desconfiança, corrupção, inércia institucional, falta de civismo, cooptações rastaqüeras etc. Problemas que formam um vácuo entre a política e os cidadãos. Diante disso, como imaginar uma sociedade civil mais ativa civicamente? Não é exagero exigir que os cidadãos decorem o nome dos ministérios e ministros? Será que este é problema central ou apenas é uma conseqüência de um problema maior?

Estas questões estão postas e desdobram em outros questionamentos, desafiam os cidadãos e a política. Debatê-las é encarar o vácuo.