Na segunda-feira (5), o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, foi o entrevistado do programa Roda Viva, da TV Cultura.
A participação do ex-presidente foi desastrosa. Para agradar o mediador, fervoroso defensor da tese esdrúxula de que Lula não desrespeitou as instituições enquanto esteve na presidência, FHC ratificou a dita cuja - apesar de ter acusado reiteradas vezes o ex-presidente Lula de desprestigiar as instituições democráticas.
FHC se contradisse. Acovardou-se. Mais uma vez. O principal líder dos tucanos, aquele que personifica a oposição, que a orienta, que a lidera simbolicamente, afirmou também que o PT é moderno. Pronto, foi dada a munição que o PT desejava para as próximas eleições. Pronto, apareceu o substituto temporário (espero que o ex-presidente Lula se recupere da doença que o acometeu e retome seu lugar) de Lula como cabo eleitoral do PT. Pronto, mais um balde de água fria naqueles que esperam uma oposição política no país.
Já escrevi neste blog alguns textos em homenagem àquele que considero o presidente mais importante da história recente deste país, Fernando Henrique Cardoso. Já o elogiei como intelectual. Considero-o estupendo analista de política e sociedade. Ele é útil para o esclarecimento público, todavia, há muito, perdeu totalmente a capacidade de ajudar a construir um projeto alternativo de poder ao do PT. Para tanto, julgo, neste momento, FHC carta fora do baralho.
A tentativa excessiva de ser cordial apenas alimenta sua fama de gentleman - que lhe confere admiração de setores isolados da sociedade que vivem de aparência -, no entanto, FHC, acima de tudo, além de analista e cavalheiro, é um político. E, por isso, certas análises de longo alcance e certas cordialidades ele deveria guardar na manga.
A estratégia recente do PT para dar densidade política à presidente Dilma Roussef consiste em aproximá-la do tucano Fernando Henrique Cardoso. Com isso, perde-se a aura de governo fanfarrão (que tinha à frente um líder capaz de se dirigir ao povo – Dilma não é- emitindo as mais abjetas barbaridades e todo mundo achava engraçado e aplaudia. Não, com Dilma nunca seria o mesmo), agrada-se determinada classe média e imobiliza mais ainda o discurso da oposição – que, sem Lula no páreo, teria, em tese, mais força. Entretanto, com Lula ou sem Lula, a oposição continua indolente, e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ao se aproximar de Dilma Roussef de maneira tão elogiosa, está colaborando com o governo, não com o país, como ele pensa, e ajudando a mitigar a oposição.
Quando FHC escreveu um artigo no qual afirmou que o povão estava com o PT – tese furada – por causa do Bolsa-Família e que por isso o PSDB deveria dialogar com a nova classe média através das redes sociais, um burburinho se fez na internet e, inteligentemente, como sempre, os tucanos começaram a se bicar publicamente e atacaram até mesmo seu guia. Internautas bocós, que de política entendem tanto como Vladimir Saffatle entende de latim, consideraram a proposta de FHC moderna. Não. A proposta foi vazia e veio carregada de pitos em seus aliados, FHC deveria ter conversado internamente sobre o assunto. Meses depois, os tucanos encomendaram uma pesquisa na qual se auferiu que o povo considera o PSDB um partido elitista, dentre outras barbaridades negativas. O resultado foi discutido publicamente pelos tucanos, para deleite do PT. Trata-se de um partido incompetente e sem rumo. E de uma oposição desorientada.
FHC deveria parar de galantear o governo petista. Deveria interromper sua missão interminável de convencer os brasileiros de que ele é um dos intelectuais globais e um homem garboso, que sabe dar nó perfeito na gravata e domina a etiqueta como Pelé dominava uma bola. Todos sabem que o presidente é educado e um intelectual reconhecido internacionalmente. Aliás, nos anos 80, FHC estava mais para maltrapilho do que para elegante. O marketing que colaborou com sua eleição a presidente fez dele um homem elegante também nas vestimentas. Acontece que não se constrói projeto alternativo de poder fazendo loas ao adversário e preocupado se o nó da gravata agrada a setores que julgam a tudo e a todos pela aparência. Estes setores não decidem eleição. Se o tucano abriu mão de controlar a língua em favor de seu partido, poderia, ao menos, não atrapalhá-lo.
FHC erra quando mima Dilma Roussef. Erra ao chamar o PT de moderno. Erra ao afirmar que Roberto Jefferson “teatralizou” as denúncias de corrupção contra o PT em 2005 (essa afirmação ele proferiu em sabatina à Folha de São Paulo na sexta-feira (9) - FHC, com estas atitudes, mais uma vez, municia o PT. Os petistas dirão: “estão vendo? FHC reconheceu o valor de Dilma e, tal como nós, considera as denúncias propaladas por Roberto Jefferson produtos de um espetáculo armado”. O grande objetivo do PT é desconstruir o mensalão. FHC deu uma mãozinha.
O ex-presidente está perdido. Entrou numa fase radicalmente politicamente correta. Debate temas da sociedade e se coloca ao mesmo tempo como representante da oposição e intelectual apartidário. Ato suicida politicamente. A população confunde as posições políticas do octogenário com as posições políticas da oposição. Os brasileiros pensam que a oposição também faz a defesa turva da descriminação da maconha e do aborto. Os brasileiros pensam que a oposição também julga o PT moderno e faz carícias intermináveis em Lula e na Dilma. Com isso, uma parte significativa dos conservadores - que representam a maioria, embora desarticulada – cai no colo do PT.
Não tem como FHC se colocar como um ator político desconectado da política partidária. Ele já tentou fazê-lo e fracassou. E por uma razão muito simples: o ex-presidente é um personagem central no tabuleiro recente da política nacional, logo, não tem como ele passar despercebido. O PT, nas eleições, sempre fez questão de lembrar o ex-presidente como o feitor da administração maldita da qual Lula foi herdeiro. Logo, o ex-presidente, querendo ou não, tem de ser cabo eleitoral do PSDB, não do PT. E, cabo eleitoral, não pode fazer publicamente análises de longo alcance que colaborem com o adversário e espinafrem seu partido. FHC tem três saídas: calar-se, ajudar a levar o PSDB para direita liberal democrática ou de uma vez por todas colaborar para que seu partido construa um projeto de esquerda alternativo ao petismo. Como o Partido dos Trabalhadores domina os movimentos sociais, sindicatos e é bem articulado dentro das universidades, à esquerda, o PSDB ficará a ver navios. Sobrar-lhe-á a ingrata luta pelo voto materialista, que é o que decide eleição. E, nesse voto, o PT, hoje, levaria, outra vez, a presidência da República, porque a massa continua a consumir freneticamente e a nadar em créditos. PSDB só tem uma chance de sobreviver: colocar-se do lado oposto ao PT.
As denúncias de corrupção não surtem efeito favorável à oposição, dentre outras razões, porque a mesma faz questão de preservar a presidente Dilma e seu partido de ataques diretos e precisos. A oposição hiberna e o valente Fernando Henrique Cardoso, com toda sua energia, parece ser o grande calmante que leva os coalas da oposição ao sono profundo. De pires nas mãos ficam os eleitores de José Serra e dos parlamentares do PSDB, DEM e PPS, que votaram nestes senhores esperando que cumprissem o papel de opositores. Entretanto, cadê o conflito? Cadê o projeto alternativo? Nem união há na oposição. E, um dos senadores eleitos pelo maior partido de oposição e cogitado a ser candidato à presidência da República em 2014 não fez um só discurso duro que o colocasse como alternativa ao PT. Pelo contrário, Aécio e seu pupilo, Antônio Anastasia, estão lá a defender o petista mineiro Fernando Pimentel.
Aécio acredita que conquistará votos com aquele discurso repetitivo e modorrento de administração meritocrática e eficiente. Aécio Neves acredita que conquistará votos bajulando a imprensa, o PT, e a base governista. Não. O garoto de Minas, nesse compasso, não conseguirá nem mesmo ser candidato a presidente. FHC e Aécio sofrem do mesmo mal, a síndrome do bom moço. Alckmin, embora austero com certas vigarices, quando governa, também gosta deste estilo polido e, volta e meia, baba os pés da presidente. Sim, cálculo, tudo cálculo político para ver se conseguem chegar ao Palácio do Planalto. Não. Não conseguirão, não nessa toada que faz dos tucanos linhas auxiliares do governo petista. A impressão que se tem é que todos estão no mesmo barco. Daí, como diria o outro: essa gente se merece.
O trem da oposição caminha rumo ao penhasco. E o PSDB, se não tomar cuidado, desaparecerá em 2014. Os tucanos deveriam trocar o maquinista (o tempo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso passou; dura constatação, contudo, verdadeira) e mudar a rota. Falta comando no PSDB. O partido virou terra de vários donos. E esse negócio de passar os anos sonhando ser o adversário levará o partido à extinção. Anotem aí. E um recado final: ter coragem não desqualifica a oposição, o que a desqualifica é o fato de ela não cumprir o papel para o qual foi eleita.
E punto. E basta.